Vencedora do Nobel da Paz critica sanções 'ilegais' de Trump contra o TPI
A vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Navi Pillay, criticou duramente nesta quarta-feira (14) as sanções "ilegais" impostas por Donald Trump contra o Tribunal Penal Internacional (TPI) e afirmou que o presidente americano precisa de uma aula de direito internacional.
Em entrevista à AFP, Pillay também declarou que o anúncio das sanções americanas contra o TPI, feito quase imediatamente após a entrega de seu prêmio, não foi uma coincidência e que o interpretou como uma "reação ao fato de o prêmio não ter sido concedido ao presidente Trump".
Questionada sobre a mensagem que gostaria de transmitir ao magnata republicano, a juíza de 85 anos respondeu: "Recorra aos seus assessores jurídicos para que expliquem o que é o direito internacional (...) e por que é ilegal interferir nos assuntos de um tribunal internacional independente".
Os Estados Unidos anunciaram na sexta-feira (9) sanções contra o TPI com o objetivo de paralisar o funcionamento cotidiano do tribunal, que julga indivíduos por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
O governo Trump se comprometeu a desmantelar o tribunal "tijolo por tijolo", indignado com a emissão, pelos juízes, de um mandado de prisão contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por supostos crimes cometidos em Gaza.
Pillay destacou que governos americanos anteriores haviam celebrado o mandado de prisão emitido pelo TPI contra o presidente russo, Vladimir Putin, e afirmou: "Isso é seletividade, é aplicar dois pesos e duas medidas, e é inaceitável".
- "Doloroso e ofensivo" -
Essas sanções, que afetarão a infraestrutura tecnológica e as operações bancárias do TPI, entrarão em vigor dentro de seis meses.
Pillay também respondeu às autoridades israelenses que reagiram com indignação à concessão de seu Prêmio Nobel, depois que ela presidiu uma comissão independente de investigação das Nações Unidas que, no ano passado, acusou Israel de cometer genocídio em sua recente campanha militar em Gaza.
Netanyahu a classificou como "fanática", enquanto o Ministério das Relações Exteriores declarou que o propagandista nazista Joseph Goebbels "sem dúvida estará aplaudindo do inferno" ao saber de sua premiação.
"Acho isso muito doloroso e ofensivo", reagiu a magistrada sul-africana.
"Goebbels tinha sangue nas mãos. É responsável pela morte de milhares de pessoas. Não apenas de judeus, mas também de pessoas negras como eu", acrescentou.
Para a vencedora do Nobel, atualmente há pouca vontade política de deter Netanyahu para que responda às acusações do TPI e compareça um dia perante o tribunal.
"Mas, durante toda a minha vida, vi pessoas superarem dificuldades, então estou convencida de que isso acabará acontecendo", afirmou.
- "Minha idade vai me limitar" -
Pillay declarou que ainda estava assimilando a notícia de que havia recebido o Nobel. A princípio, teve dificuldade para acreditar, "porque concedem seus prêmios a pouquíssimas mulheres, uma desigualdade flagrante na prática até agora".
Aos 85 anos, teme não conseguir continuar viajando pelo mundo para promover a justiça internacional.
"Acho que minha idade vai me limitar um pouco. Já não posso ser tão ativa quanto antes", afirmou, recordando que havia visitado 79 países quando era alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Segundo explicou, estava consultando várias pessoas sobre a melhor maneira de utilizar o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6 milhões), mas deu a entender que uma parte poderia ser investida em seu país natal, a África do Sul.
"A África sofre. A África do Sul sofre. É muito difícil arrecadar fundos lá", disse.
"A Universidade de KwaZulu-Natal criou uma unidade que leva meu nome, então vou começar a conversar com eles. Acredito na educação das crianças e dos jovens", concluiu.
Q.Dutta--MT