Igrejas fortificadas da Transilvânia correm risco de desabamento
Construídas no fim da Idade Média como refúgio contra ataques, as famosas igrejas fortificadas da Transilvânia correm o risco de desabar, apesar dos esforços para preservá-las e dar a elas uma nova vida.
Um claro sinal da ameaça é a histórica igreja fortificada de Moşna, no centro da Romênia, onde uma das muralhas externas desabou em uma noite de junho.
Desde então, Mariana Rempler, a última mulher que resta da comunidade saxônica de língua alemã do vilarejo, teme que a igreja perca uma de suas torres.
"Senti uma dor enorme, como se eu tivesse desabado junto com aquela muralha", declara à AFP, entre lágrimas, a mulher de 74 anos, dentro da igreja onde foi batizada e se casou.
A igreja de Moşna recebe cerca de 4.000 visitantes por ano e é uma das mais de 160 igrejas fortificadas da Transilvânia, protegidas por muralhas externas e construídas pela minoria alemã para que a população daquele território fronteiriço, então disputado, pudesse se refugiar.
À medida que os saxões deixaram a Romênia, muitos deles fugindo da ditadura comunista de Nicolae Ceausescu, várias dessas igrejas começaram a se deteriorar por falta de pessoas que cuidassem de sua manutenção.
Elas fazem parte dos monumentos históricos e de outros edifícios deste país do Leste Europeu, um dos mais pobres da União Europeia, que enfrentam a deterioração provocada pelo abandono.
- Um novo conceito para sobreviver -
Edifícios como o de Moşna, que passou por obras de restauração após a queda do comunismo, em 1989, continuam ameaçados, já que é difícil conseguir recursos para prosseguir com sua consolidação.
Dos 300.000 saxões que viviam na Transilvânia antes da Segunda Guerra Mundial, hoje restam apenas cerca de 10.000.
Aproximadamente metade das igrejas fortificadas - cerca de 80, incluindo a de Moşna - foi restaurada nos últimos 35 anos ou passará por obras de restauração nos próximos cinco, explica Cristian Cismaru, diretor da Fundação das Igrejas Fortificadas.
A fundação trabalha em conjunto com a Igreja Evangélica da Romênia para preservar os monumentos históricos com recursos provenientes de subsídios e doações. A União Europeia fornece 85% do dinheiro.
"Não acredito que conseguiremos cuidar da outra metade do nosso patrimônio durante nossa vida. Isso ficará para as gerações futuras", comenta Cismaru durante uma refeição que organizou com a comunidade local para turistas, seguida de uma visita à igreja do vilarejo de Cincşor, 60 quilômetros a sudeste de Moşna.
Cismaru explica aos participantes que um terço do valor do ingresso, de 30 euros (R$ 183), será destinado a um projeto de desenvolvimento local. Ele acrescenta que muitas das igrejas precisam de "um novo conceito para sobreviver", pois já não podem funcionar apenas como locais de culto.
Uma das propostas é transformá-las em espaços culturais.
No início deste mês, as igrejas fortificadas receberam dezenas de atividades como parte do maior festival anual da Romênia dedicado à promoção do patrimônio saxônico. Segundo os organizadores, o festival recebeu neste ano um número recorde de quase 10.000 visitantes.
- Mais turistas -
Em Moşna, o prefeito Dumitru Nutu afirma que, desde o desabamento da muralha, mais turistas passaram a visitar a igreja, principal atração do vilarejo.
Centenas de tijolos espalhados, cobertos por uma lona plástica, estão acumulados aos pés da torre ameaçada, sustentada por vigas de madeira desde 2017.
"Temos certeza de que os reparos serão feitos", afirma François Regis, um turista francês de 53 anos que visita o local com a esposa e descreve a igreja como bonita e bem conservada, com exceção da parte norte.
Assim como os turistas, Rempler também tira fotos da torre quase diariamente, mas com o objetivo de documentar as rachaduras visíveis e exigir que medidas sejam tomadas rapidamente.
"Tenho medo de que, dentro de um ou dois meses, essa torre já não esteja mais de pé", lamenta, já que a muralha que a sustentava desapareceu.
Rempler espera que o desabamento da muralha sirva de alerta e que finalmente seja encontrada uma solução.
H.Kaur--MT