França em alerta diante do risco de violência em novas manifestações
A terceira jornada de protestos contra o aumento do custo de vida começou neste sábado (31) à tarde na França sob um esquema de segurança excepcional, com 70 mil agentes mobilizados para evitar os saques registrados em 17 de outubro.
A seis meses das eleições presidenciais, as manifestações preocupam as autoridades diante da proliferação, nas redes sociais, de apelos à "revolução" e à "insurreição", além do risco de atos "espontâneos" não autorizados na noite de Halloween.
O movimento, formado por ativistas dos "coletes amarelos", sindicatos e estudantes do ensino médio e universitários, surgiu inicialmente para protestar contra o aumento do custo de vida, a desigualdade e a deterioração das condições de ensino.
Após as ações repressivas das forças de segurança e os graves ferimentos sofridos por alguns manifestantes, o movimento ampliou suas reivindicações para incluir maior proteção às liberdades civis e ao direito de protestar.
Nas últimas semanas, manifestações semelhantes lideradas por jovens foram registradas em toda a Europa. Também estavam previstas marchas neste sábado na Alemanha.
Em Paris, milhares de manifestantes, alguns fantasiados de Homem-Aranha, Mario ou Frankenstein, e carregando cartazes com slogans como "alerta climático e custo de vida", começaram a marchar por volta das 14h15 (10h15 no horário de Brasília) em bairros residenciais da zona leste da capital.
Os organizadores, que tentaram sem sucesso obter na Justiça autorização para percorrer o centro de Paris, denunciaram, assim como a Federação das Associações Gerais de Estudantes da França (Fage), "um novo obstáculo ao direito de se manifestar".
- "Sem incidentes relevantes" -
Assim como na semana passada, apenas manifestações longe dos centros urbanos foram autorizadas.
Cerca de 15 mil pessoas participavam dos protestos em toda a França, onde a situação permanecia "calma, no geral", e "sem incidentes relevantes", informou o Ministério do Interior.
A polícia havia detido, no entanto, 27 pessoas até as 14h, contra 217 prisões registradas uma semana antes.
As autoridades voltaram a mobilizar o amplo aparato de segurança utilizado no fim de semana passado para evitar a repetição do caos de 17 de outubro, quando, segundo estimativas, entre 550 mil e 800 mil pessoas foram às ruas. Houve saques a lojas, incêndios em prédios públicos e confrontos com as forças de segurança em várias cidades.
Entre 410 mil e 800 mil pessoas estiveram nos atos no último sábado, em uma jornada considerada menos violenta.
Antes de participar da manifestação em Paris, o líder da esquerda radical e candidato às eleições presidenciais de abril e maio de 2027, Jean-Luc Mélenchon, acusou o governo, no X, de promover uma "deriva autoritária".
"Demonstraremos nossa firme determinação, tranquila e disciplinada, de zelar pelo respeito aos direitos fundamentais de um povo livre", acrescentou.
- "Ansiedade" -
Em Paris, dezenas de estações de metrô foram fechadas e muitos comerciantes protegeram suas vitrines com painéis de madeira.
Uma fonte policial informou à AFP que era esperada a chegada à capital de 400 a 800 ativistas de "extrema esquerda".
Em Lyon, centro-leste do país, a prefeitura autorizou uma manifestação fora da área central da cidade, que ainda apresenta marcas dos atos violentos de 17 de outubro, quando um edifício do órgão de turismo foi incendiado.
Em Rennes, no oeste da França, a marcha começou, mas "o clima é um pouco especial", confessou Laurent, de 51 anos. "Dá ansiedade, parece um pouco a calmaria antes da tempestade", afirmou.
As autoridades alertaram para a possibilidade de distúrbios até a madrugada.
"O pretexto da noite de Halloween não será motivo legítimo para ocultar o rosto em espaços públicos" com o objetivo de "perturbar a ordem", advertiu o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
A legislação francesa permite o uso de máscaras em espaços públicos durante festividades, mas proíbe seu uso nas proximidades de manifestações.
Toques de recolher foram decretados em algumas áreas da capital nas noites de sábado e domingo, medida que também já havia sido adotada em várias cidades francesas nos últimos dias.
Diversas organizações defendem a continuidade do movimento, e duas delas convocaram bloqueios de escolas de ensino médio e universidades para terça e quinta-feira.
Também está prevista uma greve na próxima quinta-feira, e os "coletes amarelos" pedem ainda um movimento popular nos dias 6 e 7 de novembro para manter a mobilização.
Y.Raman--MT