Governo francês responsabiliza 'extrema esquerda' por onda de violência no país
As autoridades francesas apontaram, nesta terça-feira (20), a "extrema esquerda" como responsável por um plano "insurrecional" durante a onda de violência que atingiu o país no fim de semana, enquanto os primeiros detidos começam a comparecer à Justiça.
A segunda maior economia da União Europeia viveu no sábado alguns dos seus piores episódios de violência nas ruas dos últimos anos, a apenas seis meses de o país escolher o sucessor do presidente de centro-direita Emmanuel Macron.
As imagens de confrontos, de edifícios públicos incendiados e de saques em lojas correram o mundo, levando vários países, entre eles Estados Unidos, China e Alemanha, a pedir vigilância redobrada a seus cidadãos na França.
O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, acusou pequenos grupos de "extrema esquerda" de planejar "um esquema insurrecional" em algumas localidades e citou como exemplo o incêndio da Prefeitura de Limoges, que se tornou um símbolo da onda de violência.
Um homem de 34 anos, fichado pela polícia por sua ligação com a extrema esquerda, foi detido nesta terça-feira por suspeita de envolvimento no incêndio, no âmbito de uma investigação que também conta com a participação da subdiretoria antiterrorista da Polícia Judiciária.
As declarações de Lecornu ocorreram durante uma tensa sessão de perguntas ao governo no Parlamento.
A extrema direita e a direita acusaram o Executivo de não ter se preparado adequadamente para a onda de violência, enquanto a esquerda lamentou a falta de resposta às reivindicações das centenas de milhares de manifestantes que saíram pacificamente às ruas no sábado para protestar contra o "alto custo de vida".
- Novos toques de recolher -
As autoridades também estão sob pressão para retomar completamente o controle da situação. Pela segunda noite consecutiva, decretaram toques de recolher em bairros de Paris e de outras cidades para evitar novos episódios de violência e saques.
"Durante parte da [primeira] noite havia helicópteros sobrevoando a área e verificando se não havia pequenos grupos se formando", disse à AFP Sylvain Courant, morador do bairro comercial de Les Halles, em Paris. "É um pouco opressivo", acrescentou.
A medida não deve afetar a partida da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Barcelona, marcada para esta terça-feira na capital francesa.
Os movimentos dos coletes amarelos, que abalaram o primeiro mandato de Macron em 2018 e 2019, e dos estudantes do ensino médio, que reivindicam melhores condições de ensino desde o fim de setembro, convocaram novos protestos para o próximo sábado (24).
Lecornu anunciou um esquema policial "massivo".
- O "equipamento perfeito" -
Das mais de 2.500 pessoas detidas até agora, 123 estão na prisão, seja à espera de julgamento ou já cumprindo as primeiras condenações, informou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin.
Vários detidos à margem das manifestações antes do surto de violência de sábado compareceram na segunda-feira diante dos tribunais. As pessoas envolvidas nos fatos mais graves começaram a ser julgadas nesta terça-feira.
Manuel é um dos primeiros. O trabalhador temporário de 21 anos afirmou que viajou do centro da França "por impulso" a Paris para celebrar seu aniversário com a namorada, organizando um churrasco.
Para esse cozinheiro sem antecedentes criminais, isso explica o conteúdo da sua bolsa quando foi revistado antes da manifestação: garrafas de vidro, trapos e um isqueiro. O "equipamento perfeito" para um coquetel Molotov, segundo o promotor.
Dois vídeos recuperados em celulares colocam em dúvida a versão de Manuel. Neles, ele tenta, sem muito sucesso, lançar esses artefatos incendiários. Outra prova contra ele: dias antes, perguntou ao ChatGPT: "Como se proteger de um coquetel Molotov?".
"Para mim, uma manifestação tem que ser pacífica", assegurou o acusado, que vestia uma camiseta preta e seguiu diretamente para a prisão para cumprir uma pena definitiva de dois meses.
- "Gênios" -
Quanto aos autores dos saques, as autoridades os classificam como "criminosos oportunistas".
A polícia montou um dispositivo para identificá-los nos vídeos publicados nas redes sociais porque, como ironizou Lecornu na segunda-feira, são "gênios" que roubaram sem cobrir o rosto.
Sentado em uma cadeira estilo gamer no Centro de Coordenação Operacional de Segurança (CCOS), em Paris, Bruno é um dos policiais encarregados de identificar os suspeitos nos vídeos. Com o mouse na mão, concentra-se em uma gravação curta, convencido de ter reconhecido um grupo.
Ao término desse rastreamento digital, as informações são transmitidas aos investigadores em campo. "A pessoa pode dizer: 'Não, não sou eu', mas se vemos o rosto dela no vídeo...", explica uma responsável.
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G.Goel--MT